Ir para o conteúdo

luiz skora

Voltar a Blog do Skora
Tela cheia

Memórias de lições da vida

21 de Março de 2018, 21:15 , por luiz skora - 0sem comentários ainda | No one following this article yet.
Visualizado 108 vezes
Licenciado sob Copyleft

Caloteiro

 

A morte de Luciano Pizzato me trouxe lembranças.

 

Não, não guardo mágoas do recém falecido, mas calotes são tipo uma rasteira que a vida nos dá e, de um ponto de vista positivo, servem como aprendizado.

 

Me deu vontade de compartilhar os dois maiores calotes que já levei na vida, para quem quiser ler. Então vai.

 

Comecei a trabalhar com desenvolvimento de softwares completamente sem querer. Estudava agronomia na UFPR e gostava dos computadores que se popularizavam nos anos 90.

 

Um amigo muito querido, Marcyus Ney Vicente, que hoje se transformou num tremendo coxinha, passou no vestibular de informática da Tuiuti (se não me engano), desistiu do curso ainda no primeiro semestre e me presenteou com dois livros de C++ e um compilador C/C++ ainda em disquetes.

 

Seis disquetes que mudaram o rumo da minha vida.

 

No sétimo período do curso de Agronomia, eu já não tinha mais tempo para me dedicar aos estudos tamanho o volume de encomendas de programas que pagavam muito bem para um universitário normalmente sem grana nem para o rango no RU.

 

Uma professora de cálculo da UFPR descobriu meu talento para a programação e sempre fazia o meio de campo no contato com clientes, normalmente políticos ligados a oligarquia política do estado. Eu fazia o trampo e ela ficava com uma porcentagem pelos contatos.

 

Até que, em 2002 ela me convenceu a escrever um programa para a campanha do Pizzato ao senado e Richa ao governo do estado. Era uma boberinha, um sistema de cadastro de lideranças, articuladores, mala direta e envio de emails (span).

 

Eu era assumidamente Lula e Requião, mas serviço e grana não é coisa que se negue então, aceitei o trampo.

 

Escrevi os códigos em tempo recorde, instalei e configurei o programa em máquinas novinhas, todas com Windows original, monitores enormes. Dei treinamento para todas as meninas que iriam usar o programa e fiquei de plantão na central da campanha por vários dias, a postos caso houvesse algum problema.

 

Quando as pesquisas começaram a apontar que nem Pizzato e nem Richa teriam alguma chance naquelas eleições, a animação começou a diminuir, minha cobrança de honorários se transformaram em desculpas e desconversas, até que me toquei que levaria um tremendo calote.

 

Dito e feito!

 

Nunca mais aceitei prestar serviços para campanha de político nenhum.

 

Da outra vez, no lugar mais improvável possível.

 

O Padre da paróquia me chama para uma conversa na casa dele, estranhei, já era ateu assumido na época, mas fui.

 

Chegando lá, ele queria um site para a paróquia, descreveu mais ou menos o que queria e aceitei a empreita.

 

Na época o Datsi (Walfred Klitski) um cara gente boa pacas trabalhava comigo, não manajava muito de programação para internet, mas topou escrever a prova do site para apresentar ao padre e ver se ele aprovava. Se ele aprovasse, eu escreveria os códigos para colocar o site em produção.

 

Fez, ficou muito legal, um tremendo trabalho de pesquisa com textos, fotos a respeito da história da paróquia, mais um monte de textos a respeito da liturgia, dias santos, porquês e como funcionava a a igreja e até, uma fórmula para calcular o dia da páscoa e outros feriados e dias importantes na igreja, baseados no calendário lunar, para qualquer ano. Pra esse eu tirei o chapéu. Empenho louvável do Datsi.

 

Publiquei a prova do site em meu domínio pessoal e fui lá na casa do padre apresentar a prova e o orçamento pelo trampo.

 

Ele olhou, fez cara de quem gostou, não reclamou do preço, só disse que teria de estudar uma forma de fazer o pagamento e então entraria em contato.

 

Beleza, passaram-se umas semanas, e o Datsi sentado na bancada dele, diz pra mim:

 

"- Chefe, digita o domínio da paróquia aí no seu navegador."

 

Digitei e apareceu a prova do site com todos os textos e imagens da pesquisa que o Dasti havia feito dias antes!

 

Fiquei muito puto, fui na casa do padre pedir explicações e ele, assustado respondeu com cara de imagem de santo.

 

"- Apresentei teu orçamento pro rapaz que dá aula de informática aqui na escola e ele disse que era fácil e me fez quase de graça."

 

"- Como assim, quase de graça? Eu vou ter que pagar pelo trabalho de pequisa, formatação, digitação do Datsi! de Graça pra quem Cara Pálida?!

 

"- Ahh! o Rapaz só copiou aquilo que você me apesentou e colou no site da paróquia. Tá pronto!"

 

(Realmente, o "Professor" de informática só copiou os códigos html da prova e colou no site em produção)"

 

"- Como assim, CARALHO! O conteúdo do site é propriedade intelectual e não pode ser utilizado sem autorização, Porra!"

 

"- Ahh! Então eu mando o professor de informática remover todo conteúdo que for de sua propriedade intelectual."

 

Pra evitar de dar um murro nas fuças do padre, evitei de olhar para sua cara de imagem de santa e fui embora batendo as portas atrás de mim.

 

Chegando de volta, tremendo de tão puto, ainda levei uma comida de rabo da mãe, do pai, da tia e da avó, porque o padre ligou pra eles reclamando que eu fui brigar e xingar ele dentro da casa paroquial.

 

Até a última vez que olhei, anos atrás, os textos e as imagens do Datsi ainda estavam no site da paróquia.

 

Esta, sem dúvida, foi a maior rasteira profissional que levei na carreia. Quem esperaria ser passado para trás pelo líder espiritual da vila?

 

Nunca mais confiei em líder religioso nenhum!

 

Duas lições que a vida ensinou.

 

Skora


0sem comentários ainda

    Enviar um comentário

    Os campos realçados são obrigatórios.

    Se você é um usuário registrado, pode se identificar e ser reconhecido automaticamente.

    Cancelar