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luiz skora

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Como nascem os bolsominions

19 de Setembro de 2018, 16:46 , por luiz skora - 2828 comentários | No one following this article yet.
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Há tempos ando intrigado com o potencial eleitoral da candidatura Jair Bolsonaro. Como é possível que tantas pessoas reais, pessoas que conheço, as quais tenho apreço, tenham embarcado nesta insanidade coletiva ao ponto das pequisas indicarem o potencial deste candidato infame chegar ao segundo turno.

Uma candidatura como a de Bolsonaro não é uma novidade nas disputas eleitorais para a Presidência da República. O radicalismo insano e inconsequente que ele personaliza nestas eleições de 2018 é uma cópia em carbono de Levi Fidelix em 2014, 2010; de Luciano Bivar em 2006; de Eneas Carneiro em 1998, 1994, 1989. Toda elas, candidaturas sem um plano ou programa de governo claramente definido, todos eles prometendo um rompimento radical com o sistema vigente sem explicar como se dará este rompimento e, todos eles, se apresentado como os únicos capazes de salvar a nação, de libertar o país do que quer que seja. Todos estes candidatos ‘fora da caixinha’, que ao fim das apurações ficavam sempre com 0,4 ou 2% dos votos válidos apurados, ou mais ou menos, o mesmo numero de malucos que vivem e votam no Brasil.

O Tiozinho chato do churrasco

Bolsonaro é figura com experiência eleitoral, disputa e vence eleições sucessivas desde 1988. Graças a esta experiência, montou para si uma personagem, uma caricatura daquele tio chato que a gente só encontra em churrascos de família que, na mesa, esbraveja preconceito contra minorias, fala das maravilhas dos tempos da ditadura militar, implora pela adoção da pena capital e repete o mantra do “Bandido bom é bandido morto” a cada vez que ouve menção a algum crime e que, depois de tomar duas latinhas de cerveja, desaba no sofá e ronca até a hora de ir embora.

Essa personagem caricata do tio chato do churrasco de família é lugar comum nas eleições para o legislativo em todos os níveis pelo Brasil afora. É uma fórmula que dá certo, muito certo eleitoralmente. Nas eleições de 2010, por exemplo, Jair Bolsonaro foi reeleito deputado Federal pelo Rio de Janeiro conquistando 120.646 votos ou seja, 1,5% dos votos válidos para o cargo. 1,5% deve ser, mais ou menos, o percentual de ‘tios chatos do churrasco’ que vivem e votam no Rio de Janeiro.

Como parlamentar, o desempenho do presidenciável Bolsonaro, sendo insanamente gentil, é medíocre. De 1990 até 2010 (20 anos de mandato), o Parlamentar havia apresentado apenas sete projetos para apreciação de seus pares na casa, em média, um por mandato. Entre eles, tem um de 2006 em que o deputado propõe uma espécie de cota racial para o preenchimento das cadeiras nas casas legislativas ( não, não é piada, o link está aqui ) o projeto ainda está em tramitação.

Nas votações em plenário até 2010, Bolsonaro foi um típico e inexpressivo parlamentar do centão de baixo clero. Sempre votando favorável ao governo, não importando quem fosse governo, seja Collor (PRN), onde ele votou com a manada pelo impeachment; Itamar (PMDB), FHC (PSDB) ou Lula (PT).

Fora isso, o deputado utilizou-se de seu cargo para arrumar encrenca com deputadas e jornalistas do sexo feminino. Todo ano aparecia algum escândalo nos jornais onde o deputado se engalfinhava verbalmente com alguém do sexo oposto, sempre por algum motivo banal e sempre destilando muito sexismo e preconceito. Um deputado com a atitude de um agitador de Centro Acadêmico.

Governo Dilma

Bolsonaro era nada mais que um ilustre, quase desconhecido deputado até o inicio do primeiro mandato de Dilma quando, em março de 2011, o CQC, um programa de TV com bastante sucesso na época, apresentou uma entrevista cheia de polêmicas com o deputado, assim, Bolsonaro foi elevado ao status de celebridade da TV e da Internet, tudo que fosse publicado ou transmitido a respeito dele ou de alguma de suas declarações, se transformava em audiência, em viral.

Imagine que, não fosse esta entrevista para o CQC, é bem provável que Bolsonaro continuasse sendo um ilustre desconhecido para os brasileiros não residentes no Rio de Janeiro, uma espécie de Fernando Francischini, o deputado ‘Tio Chato do Churrasco’ aqui do Paraná. Marcelo Tas, em sua sede de audiência pela polêmica gratuita, pariu um monstro.

Graças a ou se aproveitando da imensa visibilidade a que foi alvo desde 2011, a produtividade parlamentar do deputado Bolsonaro explodiu. Nos últimos oito anos, apresentou mais de 600 propostas, propostas estas que são nada mais que um apanhado muito mal redigido dos desejos de tiozinhos chatos do churrasco espalhados pelo Brasil que, quase sempre, não fazem o menor sentido. Destas, o deputado conseguiu que seus pares aprovassem duas, uma delas, a polêmica lei da fosfoetanolamina, que libera o uso de um medicamento não testado e não aprovado para uso em pacientes terminais, uma irresponsabilidade sem tamanho. Aqui

Em Março de 2013, com o governo Dilma nas cordas, Dilma teve que negociar para tentar manter a governabilidade. Nestas negociações, os governistas se viram obrigados a abrir mão da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Com isso, quem assumiu a comissão foi o PSC tendo como presidente, o Deputado Marco Feliciano. Bolsonaro, ainda no PP, mas se aproveitando de sua proximidade com Feliciano e o PSC, entrou na sombra da aba do deputado evangélico e se aproveitou da visibilidade da situação e da comissão para criar ainda mais polêmica. Não foram poucas polêmicas, toda semana tinha um fato novo, chocante envolvendo a truculência do deputado em algum embate contra alguma minoria, a partir de então, o deputado ficou ainda mais conhecido, estava na boca e nas rodas de conversa de todos os brasileiros e as discussões políticas passaram a ser, desde então, meras discussões das polêmicas criadas pelo deputado. Não havia mais limites para o sucesso e Bolsonaro viu nisso a possibilidade de se tornar presidente.

Até aqui, tudo bem, qualquer brasileiro gozando de plenos direitos políticos e sendo filiado a um partido, pode pleitear sua candidatura ao cargo que lhe der na telha. O que não é nada fácil de entender é como que um parlamentar com um histórico de atividade tão abaixo do medíocre, consegue conquistar a preferência de tantos eleitores, usando como argumento apenas sua capacidade de criar polêmicas.

Como é possível?

Frágil democracia

Como já sabemos, a democracia no Brasil é muito frágil, esta fragilidade não está apenas nas instituições democráticas, também está no eleitor que só se interessa ou se envolve com a política durante o processo eleitoral a cada dois anos. As discussões sobre o que está sendo decidido nos legislativos espalhados pelo país não é uma atividade cotidiana. Não se discutem os projetos, propostas, conjunturas. Tudo fica para ser decidido na última hora, na véspera da eleição e assim, o debate eleitoral fica reduzido a simplismos, as soluções mágicas mirabolantes, por mais estapafúrdias que sejam, são as que fazem mais sucesso e, lógico, os candidatos com mais visibilidade antes do período eleitoral, serão também os candidatos com maior potencial de conquistar votos.

Bolsonaro utilizou-se de sua incrível capacidade de criar polêmicas para ficar conhecido pelo Brasil e isso agora se traduz em potencial de votos, o voto pela polêmica do eleitor que não foi preparado e nem tem o interesse de entender como de fato funcionam os processos democráticos e eleitorais.

Criminalização da atividade política

Desde junho de 2013, nas redes sociais e na mídia corporativa, tem havido uma massiva campanha de desmoralização e criminalização da atividade política, todos os políticos são pintados com as cores da corrupção da desonestidade, do enriquecimento ilícito. O debate político deixou de ser uma troca de ideias, uma apresentação de propostas para serem apreciadas e se tornou um espetáculo de trocas de acusações, com a grande mídia corporativa acusando incessantemente seus adversários ‘ideológicos’, os progressistas, encabeçados pelo PT e os canais de mídia independente e progressista, acusando incansavelmente seus adversários ‘ideológicos’ os neoliberais, encabeçados pelo PSDB.

Bolsonaro, fazendo parte do centrão (PP), passou incólume pela guerra de acusações entre tucanos e petistas, seus podres só vieram à luz quando ele já aparecia como forte provável presidenciável e, para o seu eleitor, quando estas denúncias apareceram, já pareciam como denúncias de campanha eleitoral. Para este eleitor de Bolsonaro, o candidato parece ser mais honesto e menos corrupto que os outros, apesar de não sê-lo.

Operação Lava Jato

A operação Lava jato teve inicio em 2009, mas só a partir de 2014 quando foi divulgado que membros do PT e integrantes do governo Dilma estavam envolvidos nas investigações a operação ganhou força na grande mídia e esta mesma grande mídia usando da oparação lava jato quase que como pauta única, se aproveitou das investigações e vazamentos na guerra de acusações entre tucanos e petistas para acusar ainda mais os petistas. De nada importava que o maior número de beneficiados pelos esquemas descobertos pelas investigações faziam parte de partidos como o PP ou o PMDB, o importante mesmo era pintar PT como partido mais corrupto da história.

Bolsonaro apesar de ter estado sempre do lado do governo, não importa qual governo, teve sua primeira experiência na oposição justamente no primeiro governo de Dilma. Apesar também de ter sido eleito pelo PP, o partido com o maior número de envolvidos nos esquemas descobertos pela lava jato, mais uma vez saiu ileso das denúncias e investigações. Se aproveitando disso, chamou para si a responsabilidade de ser o mais anti-petista dos anti-petistas. O eleitor que tem o anti-petismo como sua principal motivação eleitoral, vê em Bolsonaro sua própria imagem, o anti-petismo, onde Bolsonaro é a antítese de Lula.

Neomacartismo

Junto com a lava jato veio também a crise na Venezuela e, logo em seguida, a campanha eleitoral nos Estados Unidos e a aberração Donald Trump que representa a negação do processo político e civilizatório, com isso, ressurgiu das cinzas uma doutrina que já tinha sido ultrapassada no distante 1989 (ano em que Bolsonaro foi eleito pela primeira vez), o Macartismo, doutrina cujo principal dogma é o medo do comunismo - um subproduto da guerra fria, criado da década de 1950 para evitar que cidadãos estadunidenses fossem seduzidos pelos benefícios do comunismo. Esta reinvenção do Macartismo veio ainda mais abrangente, pois como o perigo comunista não existe mais - ou só existe na cabeça de malucos que acreditam nas bobagens de olavo de carvalho e seus discípulos - o neomacartismo incluiu em seu dogma além dos perigos do comunismo, também os perigos do socialismo, da social-democracia e até, pasme, do estado de bem estar social. Qualquer sistema ou projeto de governo que se proponha a reduzir desigualdades sociais, a ampliar direitos dos trabalhadores, de mulheres ou de minorias é agora classificado como perigo comunista e deve ser combatido, deve ser exterminado.

Bolsonaro, apesar de ter sido um grande entusiasta da Revolução Bolivariana até meados dos anos 2000, recentemente abraçou o neomacartismo como ideal e plano de governo e, com isso, conquistou os votos dos olavetes, dos pastores da igreja de Olavo de Carvalho e de seus discípulos e seguidores.

Tucanos arrependidos

Apesar de toda blindagem da mídia corporativa e dos operadores da operação lava jato sempre ocultando denúncias e investigações que envolvessem tucanos, a situação tornou-se insustentável. Depois do golpe/impeachment de 2016, arquitetado pelos tucanos chefiados por Aécio Neves em conluio com a banda podre do (P)MDB, chefiada por Eduardo Cunha, ficou claro para todo mundo o que já era mais do que claro para qualquer um que acompanha os fatos políticos cotidianos. Os esquemas de corrupção envolvendo figuras do PSDB e PMDB são muito mais graves e nocivos para o país do que todas as denúncias levantadas e investigadas pela operação lava jato. Assim, o PSDB está desmoralizado, o presidente do partido, Tasso Jereisati, se viu na obrigação de publicar um mea-culpa pelos erros do partido durante o processo que depôs o governo de Dilma e a consequente participação no desastroso e criminoso governo de Temer, justamente agora que Aécio Neves está a perigo de finalmente ser condenado por seus crimes e Beto Richa, ex-governador do Paraná ter sido preso preventivamente por seu envolvimento em casos de desvios e propinas no estado.

Bolsonaro que estava ao lado de Aécio Neves na última eleição presidencial em 2014, desde 2016 quando pipocaram as denúncias e investigações contra o tucano, tem se esforçado bastante para se descolar da imagem do senador golpista, com isso, vai agregar alguns votos de eleitores que votaram em Aécio em 2014, mas não todos.

Os malucos

Os malucos, os do bloco do quanto pior melhor. Os insanos que acreditam que tendo uma arma na cintura vão se livrar de assaltos ou quiçá, eliminar toda a criminalidade com um único revolver. Os que acreditam mesmo, que dá pra fazer no Brasil uma democracia e uma sociedade igualzinha aos Estados Unidos em apenas quatro anos, sem se darem conta das diferenças e histórias dos dois países e, principalmente que, quando os Estados Unidos surgiram, não havia um Estados Unidos para atrapalhar. Os que acreditam que livre mercado, livre iniciativa e menos estado é uma pilula mágica que resolve todos os problemas, sem ao menos avaliar quais são de fato as causas e desdrobamentos destes problemas.

Bolsonaro é maluco, maluco vota em maluco, eu acho.

Em resumo, votam em Bolsonaro: 

  • os analfabetos políticos inconsequentes; 
  • os admiradores cegos de Sérgio Moro e da Lava Jato ou seja, os anti-petistas patológicos;
  • os neomacartistas - anti-comunistas, anti-socialistas, anti-social-democratas, anti-esquerda patológicos;
  • uma parcela de tucanos arrependidos;
  • os malucos sem noção.

É um bocado de gente, mas não é tanta gente assim, particularmente, acho que Bolsonaro chega no segundo turno, mas na votação pra valer entre ele e qualquer outro candidato, ele fará menos votos que no primeiro turno e não ultrapassa 30% dos votos válidos.

A candidatura de Bolsonaro representa um rompimento com o processo democrático, uma ditadura avalizada pelas urnas e isso não será nada bom para o futuro de 90% dos brasileiros, nos quais, nós nos incluímos.

Pelas movimentações que tenho lido e visto, ao se concretizar os dados das pequisas e não aparecendo e nenhum fato novo que possa embaralhar tudo, tenho a impressão de que o segundo turno se transformará numa espécie de redenção do processo democrático eleitoral brasileiro que está em processo de óbito desde o golpe contra o governo de Dilma. Contrariando todos os analistas da mídia corporativa, depois do golpe/impeachment e da apoteose da operação Lava jato com a prisão de Lula, o PT ganhou força ( apesar da liderança capenga ), o PSDB e o (P)MDB que tinham tudo para saírem fortalecidos destas ações, murcharam e é bem provável que para salvar o PSDB e, junto com ele, a democracia e a república, tenhamos uma Frente Ampla bastante ampla para disputar o segundo turno que unirá PT, PDT, PSOL, REDE os tucanos do PSDB e até algumas correntes divergentes e progressistas do MDB.

Ao final do processo eleitoral de 2018 o Brasil será outro. Ou renovará a democracia ou se afogará na barbárie.

Se Bolsonaro não levar, seus bolsomions vão reclamar bastante, vão clamar por golpe por intervenção dos milicos que, se confirmada esse Frente Ampla-Ampla, não sairá dos quarteis.

Por fim, Bolsonaro sairá bastante fortalecido deste processo, não importa o resultado. Se derrotado, caberá ao candidato que vencer as eleições, reverter este processo de bolsonarização do Brasil dentro dos próximos quatro anos, se não fizer isso, em 2022 eles ganham e cagam com tudo de vez.


Luiz Skora

 


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